Eu não tenho opiniões fortes sobre a dublagem brasileira, até porque eu prefiro assistir filmes legendados, com exceção de desenhos animados. Porém, eu consigo entender o porquê de colocarem gírias cariocas na dublagem do do Yu Yu Hakusho. O anime tem vários momentos cômicos, e foi uma tentativa do estúdio de deixá-los mais legítimos para uma audiência brasileira. Se foram bem sucedidos ou não, fica ao gosto do espectador (e pelo o que falaram da thread, não deu muito certo), mas o pode-se dizer que a dublagem não quebrou a atmosfera que o anime se propôs a passar. A mesma coisa não pode se dizer a respeito de Enigma do Medo.
Quando eu disse que a dublagem de Enigma do Medo foi o ponto mais negativo é justamente porque ela em português é cheia de palhaçadinhas, com o roteiro tendo alguma culpa disso também. A diferença é que esse é um jogo de terror com foco no
Medo (tá no título, Cellbit). Se toda hora os personagens soltam algum tipo de piadoca ou agem de maneira engraçadinha, a imersão, o suspense e o medo se diluem. Em alguns momentos, o jogador desvenda alguns dos mistérios com história de fundo supostamente macabra; então, o jogo te incentiva a ligar pros NPCs ajudantes só pra te recompensarem com uma piadoca merda: normalmente, um "balacobaco" soltado pelo cotista, ou um "lmao so random" pela menina forte e empoleirada e com voz forçadamente irritante. Não só isso, mas algumas das gravações que são encontradas - com a voz de Bezerra e Briggs - possuem os mesmos problemas do mesmo tipo. Por exemplo, Bezerra faz um papel de detetive e, quando o mistério está no ápice do suspense, corta-se para algum díalogo merda do tipo "Fulana, me traz um cafezinho?"
Não sou contra o uso de alívio cômico em histórias de terror ou pesadas demais. Assim como qualquer recurso literário, se usado de maneira certa e com moderação, pode funcionar. O problema é que o roteiro, claramente, foi escrito por alguém cuja maior referência cultural são filmes da Marvel e slops do tipo. Há um meme no estrangeiro chamado "
millennial writing", que denota o problema de escrita nessas peças que acabei de descrever, e me arrisco a dizer que esse tipo de diálogo se espalhou para os roteiristas zoomers que cresceram assistindo esse tipo de coisa. Não só isso, mas percebe-se que Cellbit usou de estrangeirismos e clichês que ficam estranhos no português, coisa a nível de
"é disso que estou falando". Isso me faz suspeitar se algum gringo fez algum tipo de
ghostwriting por trás dos panos.
Para quem tem o jogo, recomendo fazer essa comparação entre as dublagens em inglês e português. A qualidade sobe muito quando se põe na língua do Tio Sam. A exemplo da Agatha, que, no português, parece algum amigo meu soltando a franga em uma mesa de RPG. No inglês, ela é bem mais séria e instrutiva para contar ao jogador como lidar com certos tipos de inimigos.
TL;DR: Millenial Writing com dublagem meme arruinou o jogo
Talvez alguém deva se lembrar de quando a Tec Toy lançava alguns jogos traduzidos pro Master System e pro Mega Drive. "Não se meta nos romances de Lassic!"
Os caras tinham a cara de pau de dizer que traduziram diretamente do japonês, sendo que esse erro de tradução é, obviamente, de algum leigo procurando a palavra "affair" no dicionário de inglês. Há também outro erro grotesco no Phantasy Star III, em que traduziram "Kingdom's claim" para "reino de Claim", coisa de amador.
O ruim da dublagem da Pitty é que parecia que ela estava lendo o roteiro ao invés de atuar.
Eu não me lembro se na campanha do jogo ela estava tão ruim assim, mas o que viralizou foram os diálogos antes das lutas no modo versus. Eles pareciam traduzidos de maneira porca e rápida pelo Google tradutor. Se os profissionais já estavam sofrendo pra tirar algo com um roteiro sem sentido, imagina um amador.